O
que é a síndrome de Rett?
A síndrome de Rett é uma doença
neurológica que afeta principalmente o sexo feminino (aproximadamente 1 em cada
10.000 a 15.000 meninas nascidas vivas), em todos os grupos étnicos.
Clinicamente é caracterizada pela
perda progressiva das funções neurológicas e motoras após um período de
desenvolvimento aparentemente normal, que vai de 6 a 18 meses de idade. Após
esta idade, as habilidades adquiridas (como fala, capacidade de andar e uso
intencional das mãos) são perdidas gradativamente e surgem as estereotipias
manuais (movimentos repetitivos e involuntários das mãos), que é característica
marcante da doença.

Sintomas
O diagnóstico da síndrome de Rett é
baseado na avaliação clínica da paciente e deve ser feito por um profissional
habilitado para tal, como neurologistas e pediatras.
Este diagnóstico é feito com base nos
critérios diagnósticos estabelecidos, que consistem em:
Critérios necessários (presentes
em todas as pacientes).
Desenvolvimento pré-natal (antes do
nascimento) e perinatal (pouco tempo depois de nascer) aparentemente normal;
Desenvolvimento psicomotor normal até
os 6 meses de idade;
Perímetro cefálico (circunferência da
cabeça) normal ao nascimento;
Desaceleração do perímetro cefálico
após 6 meses de idade;
Perda do uso propositado das mãos;
Movimentos manuais estereotipados
(torcer, apertar, agitar, esfregar, bater palmas, "lavar as mãos" ou
levá-las à boca);
Afastamento do convívio social, perda
de palavras aprendidas, prejuízos na compreensão, raciocínio e comunicação.
Critérios de suporte (presentes em
algumas pacientes):
Distúrbios respiratórios em vigília
(hiperventilação, apneia, expulsão forçada de ar e saliva, aerofagia);
Bruxismo (ranger os dentes);
Distúrbios do sono;
Tônus muscular anormal;
Distúrbios vasomotores periféricos
(pés e mãos frios ou cianóticos);
Cifose/escoliose progressiva;
Retardo no crescimento;
Pés e mãos pequenos e finos.
Critérios de exclusão (ausentes
nas pacientes):
Órgãos aumentados (organomegalia) ou
outro sinal de doenças de depósito;
Retinopatia, atrofia óptica e
catarata;
Evidência de dano cerebral antes ou
após o nascimento;
Presença de doença metabólica ou
outra doença neurológica progressiva;
Doença neurológica resultante de
infecção grave ou trauma craniano.
Causa
Na
década de 90, os pesquisadores estiveram empenhados em descobrir então qual era
o gene (um ou vários?) e, no ano de 1999, a equipe chefiada pela Dra. Huda
Zoghbi descobriu que a síndrome de Rett é causada por mutações (alterações) em
um gene localizado no cromossomo X. Este gene, chamado MECP2- e que nós
pronunciamos "mec-pê-dois" - é um gene muito importante no controle
do funcionamento de outros genes, desde o desenvolvimento embrionário. Ele
codifica (produz) uma proteína (chamada MeCP2) que controla a expressão de
vários genes importantes para o desenvolvimento dos neurônios (ou seja, quando
e onde estes genes são expressos) em todos os vertebrados. Fazendo uma analogia
e simplificando (bastante), a MeCP2 funciona como um dimmer (aquele botão que
regula a intensidade da luz) e então podemos explicar a causa da síndrome de
Rett da seguinte forma: nas pacientes afetadas pela síndrome de Rett, a MeCP2
não é capaz de funcionar corretamente e todo o desenvolvimento dos neurônios do
embrião fica comprometido.
É importante lembrar que mutações no DNA
ocorrem em todas as nossas células, ao longo de nossas vidas, todos os dias,
sem que possamos saber ou controlar. Portanto, os pais e mães de pacientes
afetadas pela síndrome de Rett, assim como pais de pacientes afetados por
qualquer doença de origem genética, jamais devem se sentir culpados.
Em
23 de fevereiro de 2007 foi publicado um artigo considerado um dos marcos
recente na pesquisa sobre a síndrome de Rett. O artigo relata os resultados da
pesquisa chefiada pelo Dr. Adrian Bird, que demonstrou que os sintomas da
síndrome de Rett são reversíveis em camundongos. O trabalho consistiu,
resumidamente, no uso de uma linhagem de camundongos geneticamente modificada,
que teve um trecho de DNA introduzido na região do gene MECP2, o qual teve sua
expressão bloqueada, e por consequência os animais apresentavam sintomas da
síndrome de Rett. A remoção deste trecho de DNA foi induzida quando os animais
receberam injeções de uma droga chamada tamoxifeno e após algumas semanas eles deixaram de apresentar
os sintomas.
Estes
resultados causaram grande furor entre os pais de pacientes, pois muitos
pensaram que havia sido descoberta uma droga para curar a doença. Na verdade, o tamoxifeno fez parte do protocolo experimental do estudo
e não é uma cura.
Assim, o que este trabalho evidenciou
foi a reversibilidade dos sintomas da doença em modelos animais. Este foi um
estudo preliminar e por isso requer aprofundamento. Até chegar às pesquisas com
pacientes será uma longa caminhada. Apesar disso, os resultados obtidos pelo
grupo de pesquisa indicam que há uma esperança para o desenvolvimento de
terapias que possam restabelecer algumas das habilidades das pacientes e,
talvez, levar à cura da síndrome de Rett.
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